Crítica | A Garota da Agulha: Um retrato implacável da miséria e da desumanização
A Garota da Agulha serve um prato frio, sem tempero, mas que abra nosso apetite e embrulha o estômago. Confira nossa crítica
Publicado em 26 de Fevereiro de 2025, às 07h01
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A Garota da Agulha (2019), do diretor sueco Magnus von Horn, é um mergulho sombrio nas profundezas da miséria social. A trama é ambientada em uma Copenhague pós-Primeira Guerra Mundial. Ao expor a degradação e o sofrimento, o filme se torna uma experiência quase insuportável de assistir.
O filme apresenta a história de uma mulher marginalizada pela sociedade e sua relação com a assassina em série Dagmar Overbye, em um roteiro baseado em fatos reais.
Em cada segundo, a obra carrega uma brutalidade inegável, mas se perde na própria obsessão estética, resultando em uma trama sem a profundidade necessária.
A miserabilidade como estilo
Em A Garota da Agulha, a estética da miséria é levada ao extremo. O filme usa o preto e branco saturado e a câmera claustrofóbica para transformar a cidade em um purgatório urbano. Cada quadro é cuidadosamente composto para exalar uma sensação de ameaça e desesperança.
Essa abordagem visual é uma assinatura do estilo de von Horn, que também foi responsável por Sweat (2020). Nessa obra, ele explorou o colapso emocional de um influenciador fitness. Em A Garota da Agulha, ele usa uma técnica similar de iluminação para distorcer os rostos, transformando-os em gárgulas grotescas e enfatizando o sofrimento físico e psicológico de seus personagens.
Essa estética imersiva, mais apropriada para o gênero de terror psicológico, cria uma tensão constante, como se cada movimento de câmera nos conduzisse a um novo pesadelo.
A Protagonista: Karoline e a Ambiguidade Moral
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A história segue Karoline (Vic Carmen Sonne), uma jovem mulher grávida, sem recursos e sem esperança, em uma cidade indiferente à sua dor. A personagem é jogada à própria sorte após perder seu emprego e casa, e, ao tentar abortar seu bebê com uma agulha, acaba se encontrando com Dagmar (Trine Dyrholm), uma mulher que oferece serviços ilegais de adoção.
No entanto, ao longo do filme, Karoline se revela mais complexa do que uma simples vítima. Embora sua situação seja lamentável, ela também se mostra uma figura pragmática, capaz de ser cruel e oportunista quando necessário.
A atuação de Sonne é impressionante, capturando a vulnerabilidade e a ferocidade de Karoline. Sua jornada é desesperadora, mas também marcada pela ambiguidade moral que faz o público questionar até que ponto ela pode ser responsabilizada pelas escolhas que faz.
Dagmar Overbye: A Crueldade Institucionalizada
Embora o filme faça referência à assassina em série Dagmar Overbye, baseada em uma figura real da Dinamarca, ela não é a protagonista. Em vez disso, o foco é Karoline, cuja história de desesperança se entrelaça com a de Dagmar, que administra uma rede de adoções ilegais.
A presença de Overbye é uma tentativa de adicionar uma camada ao filme, mostrando como o sistema em que essas mulheres vivem as molda, levando-as a tomar decisões extremas. No entanto, a abordagem de von Horn acaba apenas tocando a superfície de sua relação, sem explorar de maneira profunda o impacto dessa dinâmica na vida de Karoline.
O Desespero Como Forma de Exposição
A abordagem de von Horn em A Garota da Agulha é visceral, implacável e, por vezes, incômoda. A brutalidade do enredo pode ser difícil de digerir, tornando o filme quase monótono em sua incessante exibição de sofrimento. O que poderia ser uma análise profunda da miséria humana e das consequências de um sistema cruel se torna um exercício de tortura emocional.
A trilha sonora de Frederikke Hoffmeier, composta por zumbidos dissonantes e sons eletrônicos, reforça constantemente o sofrimento de Karoline e o retrato de sua vida, mais do que músicas tradicionais.
Isso cria uma atmosfera que mais uma vez remete ao terror psicológico, mas que acaba sobrecarregando a narrativa.
Uma História Difícil, Mas Necessária
Apesar de todos os seus defeitos, A Garota da Agulha é um filme importante. Ele não busca suavizar a história de suas protagonistas, mas sim expô-la em toda a sua dureza e crueldade. A direção de von Horn evita o melodrama e se recusa a criar um espaço confortável para o espectador.
Diferente de muitos filmes que buscam um final redentor ou uma explicação fácil para o sofrimento, A Garota da Agulha representa de forma nua e crua uma realidade implacável, onde as escolhas se limitam e as consequências se tornam severas. Essa abordagem não faz com que o filme seja agradável de assistir, mas cumpre seu papel de documentar o sofrimento humano sem adornos.
Um Filme que Deixa Marcas
A Garota da Agulha é um filme que, apesar de sua frieza estética e de sua obcessão pela dor, consegue deixar uma marca profunda no espectador. A história de Karoline é uma triste representação de um ciclo de desespero em que não há espaço para resgates ou salvação.
O filme pode ser difícil de assistir e, em certos momentos, até cansativo pela repetição da miséria, mas é inegável que ele oferece uma reflexão importante sobre o sofrimento feminino e as formas como a sociedade margina as mulheres na periferia econômica.
Mesmo que falhe em alguns aspectos narrativos, a execução das performances e a visceralidade de sua direção fazem de A Garota da Agulha uma experiência impactante, mesmo que não seja fácil de digerir.