‘Oppenheimer’ elucida a beleza e o horror da genialidade
A trama segue uma narrativa sólida que se constrói a cada minuto, mesmo retratando diversos eventos, que nos fazem dançar pelo enredo
Publicado em 23 de Julho de 2023, às 15h22
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Oppenheimer, filme que estreou no dia 20 de julho, conta com uma equipe de peso, como Cilian Murphy (Peaky Blinders), Robert Downey Jr. (Homem de Ferro e Sherlock Holmes), Emily Blunt (O Diabo Veste Prada e Um Lugar Silencioso), Matt Damon (Gênio Indomável e Perdido em Marte), Rami Malek (Bohemian Rhapsody e Mr. Robot) e muitos outros nomes, que casaram perfeitamente bem nos seus papéis.
O elenco, pode não ser recheado de grandes nomes, mas foi uma escolha sábia para a trama. Todos conseguiram se encaixar muito bem em seus papéis, transparecendo que são especialistas no assunto de física, de uma forma leve, nos fazendo pensar que poderíamos encontrá-los dando alguma palestra sobre física em algum lugar. Tal cuidado e acerto contribuem para a história e narrativa da trama.
A história do filme de Christopher Nolan, diretor A Origem e Interestelar, gira em torno de Robert J Oppenheimer, um gênio da física que a revolucionou nos Estados Unidos e ficou conhecido como ‘pai da bomba nuclear’, referindo-se as primeiras lançadas em Nagasaki e Hiroshima, que ceifou mais de 35 mil pessoas e 100 mil ficaram feridas.
Nolan já é conhecido por produções complexas e que exigem, de certa forma, uma atenção maior do público, pois cada segundo e diálogo da trama são importantes para uma compreensão e o mergulho na história. Ainda mais porque houve um jogo de câmeras, onde mostrava o passado e o presente, mas foram colocados de formas isoladas, nos permitindo diferenciar as situações, algo que pode ser um pouco complexo para alguns diretores.
Mas, dessa vez, ele conseguiu, com toques poéticos e humanizados, explorar o mundo quântico, enquanto fala das relações interpessoais, seguindo o gênio, que se isola e parte para o caminho da política, onde não tem mais volta, elucidando que esse caminho te abraça e te empurra de um penhasco.
A trama é carregada de expressionismo e nos faz, pelo seu cenário impecável, voltar no tempo e nos leva aos anos 40. Desde roupa, maquiagem, atores e atrizes, tudo colaborou para ampliar o ambiente daquela época, o que nos faz mergulhar com profundidade na história de Oppenheimer.
Robert J. Oppenheimer é colocado como um entusiasta da física, emanando uma insaciável vontade de conhecimento, e o ator Cillian Murphy conseguiu colocar nos olhos do personagem a vontade de conhecimento e de querer saber mais, fazendo despertar em nós a vontade de mergulhar nesse universo.
Um filme que aborda a física pode ser considerado difícil de engolir, mas Oppenheimer foi temperado nas medidas certas, fazendo com que seu gosto fosse leve e explodisse na boca. Isso porque as questões científicas e físicas foram colocadas de uma maneira que podemos absorver com facilidade, nos impedindo de pensar, porque a explicação é clara. Até aqueles que não entendem de ciência conseguem compreendê-la. A grande teórica do filme foi colocada de uma maneira em que podemos entender o que estão falando. E, além disso, em determinados momentos são postos animações durante as explicações que nos fazem imergir nos debates, gerando uma aproximação no enredo, o que pode ser difícil para muitos, mas não para Nolan.
Uma das propostas do filme é mergulhar na vida de um cientista e vemos que ela pode ser bela, delirante, assustadora, e pode fazer o físico perder tudo aquilo que construiu, especialmente em um cenário de guerra. É possível notar, com toques humanizados, o quanto a genialidade pode ser bela e assustadora.
Isso acontece porque a trama começa com uma luz, que cega nossos olhos mostrando a beleza da genialidade, conforme novas descobertas acontecem. Mas essa luz perde seu brilho aos poucos, pois começar a enxergar uma neblina escura se formando em torno dos personagens que vai ficando cada vez mais espessa.
Um filme com 3 horas de duração pode soar como extenso, mas enquanto assistimos, entendemos o motivo. Não seria possível contar uma história dessa magnitude em um tempo menor ou nos fazer imergir nela e de fato, essa é a principal proposta da trama, uma imersão como nenhuma outra. É o mesmo quando estamos no mar, as ondas nos puxam e arrastam fazendo com que percamos a noção do tempo, e o filme faz o mesmo.
A sutileza da humanização e da poesia que foi colocada no filme em questões interpessoais também servem como um respiro, para quem pode acabar cansando das questões quânticas. Por isso, o filme vai muito além de ser somente sobre o homem que criou a bomba nuclear e que se condenou por isso. É como se houvesse uma dança, que dá passos em assuntos políticos, militares e na ciência, mas tudo gira em perfeita harmonia, para que possamos entender todos os lados.
Para nos prender, Nolan nos serve com leves doses de tensão na trama, especialmente quando nos aproximamos do grande clímax do filme. Tudo foi colocado de forma tão impressionante, que parece que nós, enquanto estamos no cinema, estivéssemos diante da terrível arma que mudaria o curso da humanidade.
É difícil dizer se houve pontas soltas na história e se houve elas são imperceptíveis, como se um band-aid fosse colocado imediatamente impedindo que houvesse uma cicatriz no enredo da trama.
A história da humanidade é cansativa e exaustiva, e contar em poucas horas um pedaço dela que mudou todo o curso seria de fato impossível. Enquanto assiste, é preciso prestar atenção no que está acontecendo, pois cada diálogo é importante para compreender melhor a história.
Futuramente, o filme pode servir como uma verdadeira escola para outras produções que almejam retratar a vida de uma pessoa que foi destaque na história da humanidade, de uma forma boa ou ruim, pois Nolan conseguiu o que muitos não conseguem, trazendo um contexto extremamente sólido e cativante, mesmo que com muitas horas de duração e com muitos eventos acontecendo ao mesmo tempo.