Herói de Sangue mostra que uma história nunca é apagada, mas esquecida

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O filme traz um novo olhar e preserva a história senegalesa e das colônias, que sofreram na guerra

Autor Gabriel Barbosa
Gabriel Barbosa
Critica Heroi de SangueHerói de Sangue elucida a história dos senegaleses durante a Primeira Guerra Mundial. Foto: Divulgação

Construir uma história a partir de uma nova perspectiva, pode ser uma dificuldade na era atual, com tantos conteúdos sendo disseminados e produzidos por segundo.

Mas, aqueles que olham fora dessa caixa conseguem encontrar uma ‘surpresa’, um enredo que ainda não foi contado e pouco explorado e se foi, certamente precisa de um novo olhar.

No caso de Herói de Sangue, estrelado por Omar Sy, de Lupin, dirigido por Mathieu Vadepied, que estreia nos cinemas amanhã (13/07), somos surpreendidos com a narrativa que nos é apresentada, uma que pode nos gerar certo ódio, tristeza, e um nó no estômago que não tem fim, ele vai se apertando cada vez mais conforme a história vai sendo contada.

De fato, esse olhar abriu novos horizontes para fatos que são poucos contados e que se passaram durante a Primeira Guerra Mundial, mas não é novidade saber que as colônias sofreram ainda mais.

Tudo gira em torno do sofrimento das colônias, algo que é raro de se ver nos cinemas, mas o impressionante foi o cuidado e a delicadeza com que foi colocado no filme, de fato, nos prende a atenção. 

Colocar esse pressuposto em uma trama, pode tornar a narrativa mais extensa, como foi o filme, a partir do sentimentalismo, pois é ele que foi explorado no filme, e não o que se passou na guerra, pois esses fatos já foram contados diversas vezes.

Bakary Diallo e Thierno Diallo em Herói de Sangue. Foto: Divulgação
Bakary Diallo e Thierno Diallo em Herói de Sangue. Foto: Divulgação

O foco do filme é em um pai senegalês que tenta salvar seu filho, obrigado a servir o exército Francês e escancara a violência colonial, deixando claro que por mais que uma história seja pouco conhecida ou falada, jamais será apagada. O filme buscou e conseguiu preservar a história senegalesa. Isso fica mais claro quando vemos os diálogos na língua fula, da África Ocidental.

É possível perceber que a trama não romantiza os fatos, que são reais, mas apontam uma reflexão para nossos tempos, que ainda tem muito a evoluir e progredir. 

Emoção é o que cativa nossa atenção, nos impedindo de tirar os olhos do filme, pois os eventos que se dão na trama, se perdidos, podem nos fazer perder algo da história.

Todo o ambiente foi devidamente bem estruturado, de uma forma que nos faz imergir no ambiente, como se voltássemos no tempo e pegamos um barco, que nos leva ao local dos eventos.

Pouco a pouco, vemos momentos de luz na relação de pai e filho, mas também há os momentos de sombras, inclusive quando o patrono da família vê seu filho amadurecendo de uma forma que ambos não esperavam e numa ocasião sanguinária.

É nessa relação, em um momento de clímax de preocupação e medo, que foi colocado de forma excelente na trama, o que acontece quando esses sentimentos chegam à flor da pele do personagem, o que, mais uma vez, resulta em um aperto no coração dadas as circunstâncias que podem resultar na trama. 

O rapaz, que ainda é muito ingênuo, aceita sem retrucar as ordens postas sobre ele enquanto seu pai faz de tudo para tirá-lo de um caminho onde o final pode ser ainda mais sangrento. 

Até então, esse lado da história da Primeira Guerra Mundial era um breu nas telas, mas agora veio um clarão, não contando de forma ampla, mas algo mais reduzido a uma família, o que permite uma exploração no contexto e um mergulho mais profundo e delicado na história dos soldados senegalês.

Treinamento dos soldados senegaleses em Herói de Sangue. Foto: Divulgação
Treinamento dos soldados senegaleses em Herói de Sangue. Foto: Divulgação

O enquadramento da câmera e a trilha sonora nos fazem estar ao lado dos personagens principais, que vivem um momento de terror e tentam sobreviver para que possam regressar para suas famílias.

Esperar um filme completamente de ação, como normalmente é abordado os de guerra pode ser um erro, pois a proposta principal é elucidar um lado dessa história, mas de forma emocional e isso faz com que não sentimos falta de ações em excesso, explosões em acesso, tiros para todos os lados.

A maneira como o roteiro foi construído suprime a ausência do clichê que vemos em muitos filmes de guerra.

Heróis de Sangue precisaria de mais que 1 hora e 40 minutos para contar com muito mais detalhes o que aconteceu com os africanos que foram tirados de suas terras para lutar na guerra ou para contar sobre aqueles que viam uma esperança ao se juntarem a ela, em busca de uma melhora em sua vida financeira- mas esse foi um ponto pouco explorado, mas ainda assim, é um cenário que dito na trama.

Se é um filme com uma nova narrativa e perspectiva que você procura, que explora de forma delicada laços de família, Herói de Sangue pode ser o filme que você procura.