Como Asmongold lotou WoW Forever com a guilda Olympus — e por que isso virou problema

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Asmongold levou milhares de jogadores para a Olympus durante o beta de World of Warcraft: Forever e transformou o retorno a Azeroth em um teste de estresse para a Blizzard.

Autor Jean Azevedo Koreiajr
Jean Azevedo Koreiajr
Asmongold no World of Warcraft Forever(FONTE: GeekShip)

World of Warcraft: Forever ainda nem chegou oficialmente ao público, mas já viveu uma cena que parece saída do auge de Azeroth. Asmongold, um dos nomes mais conhecidos da história de WoW, reuniu uma multidão em torno da guilda Olympus e levou milhares de pessoas para o beta. O resultado foi uma demonstração poderosa do alcance de um streamer, com cidades tomadas, filas enormes e jogadores tentando descobrir como coexistir com um exército que não cabe em uma única guilda.

Só que a história não termina na mobilização. A Olympus transformou a estreia do beta em propaganda espontânea para a Blizzard, ao mesmo tempo em que expôs um lado incômodo dessa concentração de público: relatos de queda de desempenho, spam, insultos e gente que já procura maneiras de bloquear seus integrantes. Para entender o tamanho disso, vale olhar primeiro para o que é o novo projeto da Blizzard.

O que é World of Warcraft: Forever?

World of Warcraft: Forever é uma nova vertente de WoW construída a partir da experiência clássica, mas sem ser apenas uma repetição do jogo de 2004. A proposta oficial é revisitar Azeroth com áreas novas ou reformuladas, sistemas atualizados e conteúdo que seguirá sendo expandido. O lançamento está marcado para 4 de novembro de 2026; antes disso, o beta vai até 21 de outubro.

World of Warcraft Forever Wow Forever
(FONTE: Blizzard)

A mudança mais relevante para este caso está na estrutura dos mundos. Em vez de escolher entre vários reinos, o jogador escolhe um conjunto de regras, como PvP, normal ou roleplay, e entra no mesmo ambiente daquela modalidade. A Blizzard fez isso para preservar a sensação social do MMORPG, mas a decisão também concentra multidões no mesmo lugar. Na abertura do beta, a experiência já registrava filas de mais de uma hora, desconexões e dificuldades para entrar, como mostrou a PC Gamer.

Não há prova de que Asmongold, sozinho, tenha causado as filas gerais do beta. A demanda já era alta e a própria Blizzard tratava o período como teste. Mas a arquitetura de Forever torna o impacto de uma comunidade organizada muito mais visível: não existe simplesmente outro reino para fugir quando ela decide caminhar pela mesma capital.

Quem é Asmongold?

Zack Hoyt, conhecido como Asmongold, começou a jogar World of Warcraft em 2006, segundo a descrição de seu canal na Twitch, e construiu a própria imagem pública em torno do MMO. Ao longo dos anos, ele deixou de ser apenas um jogador dedicado para se tornar uma figura central da cultura de streams de games, com transmissões que misturam WoW, reações e comentários sobre a indústria.

I accidentally started a cult..

Esse vínculo antigo com Azeroth explica por que seu retorno chama tanta atenção. Asmongold não chegou a Forever como um criador que decidiu testar o lançamento da semana. Para uma parte do público, ele é um rosto associado ao próprio WoW. Quando ele abriu espaço para a Olympus, seus espectadores não entraram apenas para acompanhar uma live; entraram para participar de um evento coletivo dentro do jogo.

Como a Olympus tomou conta do beta

O movimento começou com a retomada da Olympus, guilda de Asmongold, no conjunto de regras PvP da Aliança. Em pouco tempo, os jogadores passaram a se organizar em várias guildas com o mesmo nome, porque cada uma comporta no máximo mil membros. Um complemento criado para a comunidade, o Olympus Guild, afirma que a estrutura passou de 10 mil integrantes durante o beta e exibia, em uma de suas capturas, 16.194 jogadores distribuídos em 21 guildas.

Esses números vêm do próprio addon e não de um censo oficial da Blizzard, então devem ser lidos como retrato comunitário, não como dado definitivo da empresa. Mesmo assim, eles ajudam a explicar as cenas. A Olympus criou canais próprios, uma hierarquia de líderes e ferramentas para localizar membros e vagas em outras ramificações. A ideia de “guilda” virou quase uma facção paralela: vários grupos, uma mesma identidade e uma audiência disposta a obedecer à próxima ordem emitida durante a transmissão.

30,000 PEOPLE AND GROWING... WE CAN'T BE STOPPED

Foi assim que a multidão saiu da tela e ocupou Azeroth. Reportagem da Dexerto registrou que milhares entraram na Olympus e centenas chegaram a seguir o streamer ao mesmo tempo. A força do fenômeno não estava em uma mecânica secreta nem em privilégio concedido pela Blizzard. Estava na combinação entre um nome consolidado, uma comunidade acostumada a acompanhá-lo ao vivo e um WoW sem reinos alternativos para diluir aquela massa.

Durante uma transmissão em 21 de setembro, Asmongold ainda brincou com a situação e disse que existiam dois tipos de jogadores em Forever: os que estavam na Olympus e os que ainda não estavam. A frase resume o tom da mobilização, mas também mostra como o evento saiu rapidamente da brincadeira interna para afetar quem não queria fazer parte dela.

A força que trouxe jogadores também trouxe problemas

O sucesso da Olympus é fácil de enxergar. Ela colocou World of Warcraft: Forever em evidência antes do lançamento, deu ao beta imagens de MMO vivo e reconectou uma audiência enorme a um jogo que depende justamente de convivência. Em um mercado no qual tantas comunidades se fragmentam entre servidores e plataformas, isso tem valor para qualquer desenvolvedora.

O custo apareceu na mesma velocidade. Jogadores relataram que grupos da Olympus lotaram áreas, derrubaram a taxa de quadros nas capitais e transformaram o chat em um fluxo difícil de acompanhar. A Dexerto também apontou acusações de spam e insultos, além da criação do OlympusMute, um addon que bloqueia mensagens, convites, trocas e duelos vindos de personagens identificados como membros dessas guildas. A prévia da ferramenta chegou a mostrar 361 jogadores silenciados e tags que iam até Olympus XLI.

As reclamações não devem ser tratadas como prova de que cada membro da Olympus pratica esse comportamento. Uma guilda com milhares de pessoas não é um bloco uniforme, e a própria discussão nos fóruns separa a conduta de indivíduos da responsabilidade coletiva. O problema, porém, é de escala. Quando uma comunidade tão grande ocupa o mesmo espaço e se organiza em torno de uma personalidade, poucos excessos já bastam para moldar a experiência de todos os outros.

Também não dá para analisar esse caso ignorando quem é Asmongold fora de WoW. Em 2024, ele recebeu uma suspensão de duas semanas da Twitch após comentários desumanizantes sobre palestinos em uma live. O streamer pediu desculpas e se afastou de funções de liderança na OTK e na Starforge, mas o episódio foi documentado pela Polygon e pelo The Verge. Essa polêmica não explica, por si só, os problemas em Forever, mas torna compreensível a resistência de parte da comunidade a entregar tanto espaço a uma figura cuja presença pública frequentemente vem acompanhada de conflito.

World of Warcraft: Forever ainda está em beta, então a Blizzard tem tempo para ajustar capacidade, moderação e ferramentas sociais antes de 4 de novembro. A Olympus, por sua vez, revelou algo que números de pré-venda não mostram: Asmongold ainda consegue mover uma multidão absurda em Azeroth. Resta saber se o jogo conseguirá transformar essa energia em comunidade sem deixar que o espetáculo de uma só guilda engula o mundo inteiro.