Review: Marathon (PS5)

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Shooter de extração dos criadores de Destiny, Marathon nos conquistou com um gunplay incrível e muitos mistérios em Tau Ceti IV

Jean Azevedo Koreiajr
Marathon Review Análise PS5(Fonte: Bungie)

Quando um estúdio responsável por redefinir o gênero de tiro em primeira pessoa decide explorar um novo território, a expectativa naturalmente sobe. Foi assim quando a Bungie anunciou Marathon, um shooter de extração ambientado no misterioso planeta Tau Ceti IV. O projeto carrega décadas de experiência acumulada em duas franquias gigantes: Halo e Destiny.

A diferença é que o título não tenta repetir o que funcionou nesses universos. Em vez de apostar em campanhas épicas ou raids cooperativas, o estúdio decidiu mergulhar no formato competitivo de extração, um subgênero que mistura exploração, PvPvE e risco constante de perder tudo.

Nos divertimos por alguns bons dias na versão de PS5 (obrigado, Theogames!) e o saldo é extremamente positivo.

O resultado é um jogo que apresenta algumas das melhores mecânicas de tiro já criadas pela Bungie, mas que também expõe problemas claros de estrutura, onboarding e design de mapas. Em muitos momentos, o game parece brilhante; em outros, transmite a sensação de que algo essencial ainda não está totalmente encaixado.

Tau Ceti IV e o mistério que move os Corredores

A ambientação de Marathon gira em torno de Tau Ceti IV, um planeta colonizado pela humanidade no século XXVIII. No auge da colônia, a cidade de New Cascadia chegou a abrigar cerca de 24 mil habitantes. Tudo mudou após eventos catastróficos que envolveram ataques alienígenas, conflitos internos e colapsos misteriosos.

Décadas antes dos acontecimentos do jogo, a colônia sofreu uma série de desastres. Primeiro veio um ataque da raça alienígena conhecida como Pfhor. Depois, incidentes biológicos e químicos devastaram a população humana. Ao longo do tempo, a comunicação com o planeta simplesmente desapareceu.

Quando o jogo começa, Tau Ceti IV já não é mais uma colônia funcional. O mundo está em ruínas, repleto de drones militares, tecnologia abandonada e fragmentos de um passado que ninguém compreende completamente.

É nesse cenário que surgem os Runners, ou Corredores.

(Fonte: GeekShip/KoreiaJr)

Os Corredores são mercenários que exploram o planeta em busca de recursos, tecnologia e segredos. Diferente de soldados comuns, eles não estão limitados a um único corpo. A mente de um Runner pode ser armazenada em servidores e transferida para novos corpos artificiais — chamados de cascos.

Na prática, isso significa que a morte não é permanente. Se um Runner cair em missão, sua consciência pode ser restaurada em outro corpo através de impressoras biológicas avançadas.

Essa premissa cria uma base narrativa interessante: a morte vira apenas mais uma variável dentro da exploração de Tau Ceti IV. O planeta se transforma em um campo de testes para soldados descartáveis que voltam repetidamente ao combate.

Um loop narrativo que justifica o gameplay

A Bungie constrói a narrativa de Marathon de forma fragmentada, semelhante ao que fez em Destiny. Grande parte da história não aparece em longas cutscenes, mas em registros, diálogos ambientais e pequenos detalhes espalhados pelos mapas.

O jogador descobre, por exemplo, que forças militares conhecidas como UESC operam no planeta com objetivos pouco claros. Drones, patrulhas automatizadas e soldados controlam várias áreas de Tau Ceti IV.

Ao mesmo tempo, diferentes facções mercenárias disputam influência sobre os Runners.

(Fonte: GeekShip/KoreiaJr)

Essas organizações oferecem contratos, melhorias e recompensas para quem cumprir tarefas específicas durante as incursões. A progressão do jogador está diretamente ligada a essas alianças.

O planeta também guarda inúmeros mistérios: sinais de colapso social, vestígios de tecnologia desconhecida e eventos inexplicáveis que sugerem que a destruição da colônia talvez não tenha sido apenas consequência da guerra.

Essa abordagem reforça a sensação de exploração. O jogador não recebe todas as respostas de imediato. Em vez disso, a história se revela lentamente conforme novas áreas são exploradas e mais missões são concluídas.

Um dos melhores gunplays já criados pela Bungie

Se existe um aspecto em que Marathon raramente decepciona, é no gunplay.

A Bungie construiu sua reputação justamente nesse campo. Desde os tempos de Halo, o estúdio demonstra uma habilidade incomum em criar armas que parecem satisfatórias em cada disparo.

Em Marathon, essa filosofia chega a um novo nível.

Cada arma possui peso, recuo e impacto muito bem calibrados. A sensação ao disparar um rifle de assalto, por exemplo, é completamente diferente de utilizar uma arma energética ou uma submetralhadora de alta cadência.

O sistema de attachments amplia ainda mais essa profundidade.

Os jogadores podem modificar armas com diferentes componentes que alteram desempenho, estabilidade e efeitos especiais. Algumas melhorias aumentam a precisão. Outras mudam completamente o comportamento da arma.

(Fonte: GeekShip/KoreiaJr)

Além disso, as munições são separadas por tipos específicos, criando decisões estratégicas durante as incursões. Gerenciar recursos se torna essencial, principalmente quando a missão começa a se estender além do esperado.

Essa combinação de armas variadas, modificações e munições cria um sistema extremamente flexível. Jogadores podem construir loadouts focados em furtividade, combate agressivo ou controle de área.

Em todos os casos, a sensação de disparo permanece consistente e extremamente refinada.

Facções e progressão dentro das partidas

Outro elemento importante do gameplay são as facções.

Dentro de Marathon, os Runners podem escolher servir diferentes organizações. Cada uma delas oferece vantagens específicas durante as partidas.

Algumas facções aumentam a quantidade de créditos obtidos durante as missões. Outras melhoram atributos físicos do personagem, como resistência ou fôlego.

Essa estrutura incentiva os jogadores a experimentar diferentes estilos de jogo.

Quem prefere explorar e acumular recursos pode focar em facções econômicas. Já quem prioriza confrontos diretos pode buscar benefícios voltados para combate.

Essa relação evolui com o tempo. Quanto mais contratos um Runner completa para determinada facção, maiores são as recompensas desbloqueadas.

O sistema cria uma camada adicional de progressão que vai além da simples coleta de equipamentos.

O loop principal: entrar, extrair, sobreviver

O coração de Marathon está no seu loop de gameplay.

Antes de cada missão, o jogador prepara seu loadout no hub principal. Ali é possível escolher armas, equipamentos e habilidades.

Depois disso, o Runner desce até Tau Ceti IV para iniciar a incursão.

O objetivo é relativamente simples: explorar o mapa, coletar recursos e completar contratos antes de extrair com segurança.

No entanto, o risco é constante.

Se o jogador morrer durante a missão, todos os itens coletados podem ser perdidos. Esse fator cria tensão permanente durante cada partida.

A extração bem-sucedida garante recursos que podem ser usados para melhorar equipamentos, fortalecer relações com facções ou preparar novas incursões.

Esse ciclo — preparar, entrar, explorar, extrair — forma a base da experiência.

Quando funciona, ele é extremamente viciante.

PvP e PvE criando tensão constante

Um dos aspectos mais interessantes de Marathon é a mistura entre PvP e PvE.

Durante as incursões, o jogador enfrenta dois tipos de ameaça: outros Runners controlados por jogadores reais e forças automatizadas da UESC.

Esses drones e soldados controlados pela inteligência artificial representam um desafio considerável.

Em muitos momentos, os confrontos contra a IA são até mais difíceis do que os duelos PvP.

Os inimigos demonstram comportamento tático avançado. Eles utilizam cobertura, pressionam posições estratégicas e reagem rapidamente às ações do jogador.

Esse nível de inteligência artificial eleva o nível das batalhas.

Além disso, o design sonoro contribui para aumentar a tensão.

A trilha sonora entra de forma dinâmica durante confrontos importantes, criando momentos intensos que lembram a assinatura sonora que a Bungie desenvolveu ao longo dos anos.

Quando tudo se encaixa — tiroteios acelerados, música crescente e risco de perder loot — Marathon atinge alguns de seus melhores momentos.

Um mundo bonito, mas muitas vezes vazio

Apesar de todos esses acertos, Marathon apresenta problemas estruturais que impactam a experiência.

O primeiro deles está no design dos mapas.

Tau Ceti IV possui áreas visualmente interessantes e com identidade própria. No entanto, muitas dessas regiões parecem subaproveitadas.

Em diversos momentos, o jogador percorre grandes distâncias sem encontrar atividades relevantes.

Essa falta de eventos dinâmicos ou objetivos secundários reduz o senso de urgência durante a exploração.

Em jogos de extração, o ambiente precisa constantemente estimular decisões: lutar, fugir, investigar ou extrair. Quando o mapa não oferece estímulos suficientes, o ritmo da partida sofre.

Essa sensação contrasta com experiências recentes do gênero, como Helldivers 2, que utiliza eventos emergentes e objetivos variados para manter o jogador sempre ocupado.

Em Marathon, esse dinamismo ainda parece limitado.

Onboarding confuso para novos jogadores

Outro problema importante está no onboarding.

O jogo não ensina adequadamente seus sistemas principais.

Novos jogadores podem levar várias partidas até entender completamente mecânicas básicas como interação com itens, objetivos de missão ou funcionamento das facções.

Essa curva de aprendizado confusa pode afastar quem não está familiarizado com shooters de extração.

Em um gênero que já exige bastante atenção tática, a falta de tutoriais claros acaba dificultando a entrada de novos jogadores.

A Bungie já demonstrou no passado que consegue explicar sistemas complexos de maneira eficiente. Em Marathon, essa introdução simplesmente não parece pronta.

Interface pensada para PC, não para consoles

Outro ponto fraco está na interface.

Os menus de Marathon claramente foram projetados com mouse e teclado em mente.

Nos consoles, a navegação depende de um cursor controlado pelo analógico — uma solução que torna a experiência lenta e frustrante.

Selecionar armas, comparar equipamentos ou organizar inventários acaba se tornando um processo cansativo.

Em jogos que exigem preparação constante antes das partidas, a interface precisa ser rápida e intuitiva.

Nesse aspecto, Marathon ainda parece distante do padrão esperado para títulos lançados sob o selo da PlayStation Studios.

Momentos brilhantes escondidos em um sistema irregular

Mesmo com esses problemas, Marathon continua oferecendo momentos realmente impressionantes.

Os confrontos contra patrulhas da UESC, por exemplo, podem se transformar em batalhas memoráveis. A combinação entre inteligência artificial agressiva e armas extremamente bem calibradas cria combates cheios de tensão.

Da mesma forma, encontros inesperados com outros jogadores podem transformar uma missão tranquila em uma corrida desesperada pela extração.

Esses momentos representam o verdadeiro potencial do jogo.

O problema é que eles não acontecem com a frequência necessária.

Entre um confronto intenso e outro, muitas partidas acabam parecendo longas caminhadas por mapas com pouca atividade.

Marathon é tudo o que promete, mas pode ser melhor

Marathon é um jogo cheio de contrastes.

De um lado, ele apresenta talvez o melhor gunplay que a Bungie já criou. As armas são incríveis, o sistema de personalização é profundo e os combates contra inimigos controlados pela IA são surpreendentemente desafiadores.

Do outro, o jogo sofre com problemas claros de estrutura.

O design de mapas carece de atividades dinâmicas, o onboarding não explica bem suas mecânicas e a interface não parece adaptada para consoles.

Esses fatores fazem com que Marathon tenha dificuldade em transformar sua excelente base de gameplay em uma experiência consistente.

Quando o jogo coloca o jogador frente a frente com forças da UESC ou em confrontos PvP imprevisíveis, ele mostra um potencial enorme.

Mas, fora desses momentos, Tau Ceti IV muitas vezes parece um planeta silencioso demais para um shooter de extração.

Marathon é nota 76!

A Bungie construiu um sistema de combate quase impecável. Agora, precisa encontrar maneiras de fazer os jogadores se apaixonarem pelo mundo que envolve essas batalhas.

Se conseguir equilibrar esses elementos no futuro, Marathon pode se tornar um dos shooters mais interessantes da geração.

Hoje, no entanto, ele permanece como um jogo impressionante — mas ainda em busca da experiência completa que promete.

Pontos positivos:

  • O melhor gunplay já feito pela Bungie.
  • Elementos de gameplay muito bem equilibrados.
  • O PvP é extremamente tenso e é uma grata (nem sempre) surpresa nas incursões, deixando o jogador ainda mais imerso junto a um design de som impecável.
  • As tropas da UESC são extremamente bem calibradas para o PvE e são o grande diferencial do shooter de extração.
  • Não há paz, nem na hora da fuga.
  • Conteúdos adicionais têm tudo para manter o jogo vivo e interessante por bastante tempo.

Pontos negativos:

  • Navegação nos menus é bem ruim nos consoles e atrapalha em trocas mais tensas.
  • O mundo de Marathon parece vazio em alguns momentos.
  • As missões e o level design precisam de atenção.
  • A busca por partidas pode demorar um pouco.

Caso isso não seja o suficiente para você tirar suas conclusões, sem cortes, aqui está uma live completa com muita ação em Tau Ceti IV: