13 Sentimentos acerta na metalinguagem e erra com protagonista (Crítica)

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Novo filme do diretor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tenta lidar com a frieza dos amores contemporâneos

Autor Matheus Rocha
Matheus Rocha

26/06/2024, 13:59

Protagonista de 13 Sentimentos sorridente de frente para outra pessoa, sentado à uma mesa.Foto: Vitrine Filmes/Reprodução

Lançado em 13 de junho deste ano, o longa-metragem 13 Sentimentos, do mesmo diretor do grande sucesso Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, é bastante inteligente em conduzir sua narrativa a partir de artifícios metalinguísticos. Talvez isso também seja um escape para uma história monotemática e com um protagonista de gosto duvidoso.

Apesar disso, o filme consegue deixar a audiência minimamente interessada pelo que vem logo na sequência. De certo modo, há uma clara tentativa de produção de um cinema queer no Brasil, mas sem deixar o assimilacionismo de lado. 

Será mesmo que vale a pena assistir 13 Sentimentos (2024) no cinema? Confira o que achamos da obra logo abaixo!

13 Sentimentos: filme do mesmo diretor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é bom?

De maneira estrutural, 13 Sentimentos trata de um roteirista exausto de tanta superficialidade em suas relações gays e, por isso, decide escrever uma história sobre si mesmo enquanto ela ainda acontece. Por esse motivo, visualmente, o longa traz à tona artifícios bem interessantes para retratar o mundo dos aplicativos de pegação — indo além de simples motion graphics na tela.

Somando esse recurso criativo à metalinguagem desenvolvida ao longo de diversas sequências, principalmente quando lembramos que a instância narradora é o próprio protagonista, João (interpretado por Artur Volpi), fica nítido como essas questões técnicas e estruturais poderiam estar à serviço de uma história muito mais cativante, bem amarrada, além de estar livre de tantos clichês e obviedades tão batidas. 

Na trama, João acaba de terminar um relacionamento de 10 anos com Hugo (Sidney Santiago). Segundo ele, os dois finalizaram seu romance e parceria como uma série em seu auge. Esse diálogo um tanto quanto estranho pode soar como vergonha alheia aos ouvidos de determinados espectadores.

Ainda sem desfazer sua mala de uma viagem com o ex, João cria um novo perfil em um aplicativo de pegação, despertando o interesse de Victor (Michel Joelsas) no mesmo instante. Além de Victor, João também conhece Alexandre (Fabrício Pietro), que o convida para ser a “marmita” de seu casal com Rodrigo (Daniel Tavares).

Até aí tudo bem?

Vivendo em um mundo de ilusões e sonhos, o taurino protagonista livremente insuportável — algo bastante verossímil com a astrologia, diga-se de passagem — acha que pode desenvolver algo mais profundo com Victor e decide conhecer o casal Alexandre e Rodrigo, apenas para descobrir que não estava muito a fim daquele envolvimento. 

Até aí tudo bem, acontece que esse mesmo protagonista parece não saber o que quer — o que também tá tudo bem, exceto quando você está lidando com o sentimento (?) de outras pessoas. Ele tem interesse por tudo e por todos, quer tudo e todos e ao mesmo tempo não quer nada. 

Seus amigos, Chico (Marcos Oli) e Alice (Juliana Gerais), que são a melhor coisa do filme, estão sempre no campo da provocação. Acho que para dar uma balanceada em um protagonista tão chato, o público precisava mesmo de bons coadjuvantes que não fossem apenas interesses amorosos. De alguma maneira, é como se eles tentassem colocar João de volta ao mundo real, com diálogos que colocam em cheque suas percepções.

Personagens de 13 Sentimentos observando um celular, com a mulher ao centro sorridente.
Foto: Vitrine Filmes/Reprodução

Aliás, é bem interessante como a direção decupa algumas das cenas desse trio. Há um plano sequência que os coloca em sintonia, conversando sobre frivolidades, todos eles com os seus respectivos celulares nas mãos. Nada mais 2024 do que isso, não é mesmo?

Clichês excessivos

Conforme a narrativa de 13 Sentimentos se desenvolve, João — que lembra bastante o personagem de Neil Patrick Harris na série Uncoupled — percebe que todas as suas percepções anteriores podem estar equivocadas e sua jornada culmina em descobertas interessantes. Nesse sentido, o roteiro acerta em dar um pouco mais de camada à inconsciência consciente do protagonista. 

Desde o início, João demonstra estar chateado com seus rumos profissionais, não consegue se dedicar ao roteiro que sua produtora Maitê (Maitê Schneider) havia solicitado e ainda se vê sem saída no campo afetivo/amoroso. O cubo mágico, que o persegue desde o início do filme como um presente de seu ex-namorado, vai ganhando ainda mais importância na narrativa.

E apesar dos clichês estruturais de clímax, como a desavença entre os amigos, João tem um final interessante ao lado de alguém que já havia sido citado no filme. Porém, as obviedades em torno desse arco cansam: “olha só, ele conseguiu resolver o cubo mágico!” ou “olha só, eles têm 13 centímetros de diferença de altura, uau!” Não precisava. Deixou tudo ainda mais cringe, para usar um linguajar do momento.

Veredito: ver ou não ver no cinema?

Mesmo com isso, 13 Sentimentos é um filme que merece ser visto, seja para morrer de vergonha alheia em determinadas passagens, seja para provocar discussões sobre amores contemporâneos ou ainda para nos trazer bons insights criativos sobre visualidade no cinema brasileiro. Não é tão queer quanto poderia ser, mas também não é de todo ruim. 

Se quiser esperar para ver no streaming, não seria uma má ideia. E se eu fosse você, assistiria só para torcer contra o protagonista e se deliciar com um acontecimento que o decepciona próximo do final. No mínimo um “bem feito” você vai soltar!

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